sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Copa começou!


Foi quase um ano e meio de espera e muito trabalho até que ela chegasse. Ela, a copa, a minha primeira copa. A primeira também da África do Sul e de um continente todo. De um povo lindo, colorido, sofrido, alegre, apaixonante.



Infelizmente não pude entrar no estádio, mas do lado de fora vi milhares de pessoas esbanjando alegria, empolgação, cumplicidade. Sul-africanos brancos e negros, ricos e pobres e de origens distintas misturados a estrangeiros vestidos de Bafana Bafana.


Certa hora uma turista passou por mim e gritou: este é o melhor país do mundo. A África do Sul está longe de ser um exemplo de organização e desenvolvimento, mas é sem dúvida um país milionário em sorrisos e diversidade. Claro que isso não basta para fazer uma Copa do Mundo exemplar, mas será o principal combustível para o mundial mais alegre da história.







(Marta)

domingo, 30 de maio de 2010

Invasão branca em Soweto


Em quase dois anos de experiências inesquecíveis na África do Sul, presenciei ontem um dos momentos mais emocionantes de minha passagem por este país que aprendi a amar como meu. Foi na final do Super 14, campeonato que reúne os melhores times de rúgbi do mundo.

Por causa da Copa do mundo, o estádio Loftus Versfeld, em Pretória, onde o Blue Bulls manda seus jogos, estava fechado e a final contra o Stormers, time da Cidade do Cabo, foi transferida para o estádio Orlando, que fica no coração de Soweto.

(Brancos e negros juntos na torcida pelo Bulls)

Quem conhece um pouquinho da história sul-africana, sabe que Soweto foi o berço da resistência negra contra o Apartheid e até hoje praticamente todos os seus moradores são negros. Mesmo após o fim do regime de segregação racial, a maioria dos brancos sul-africanos não ousou colocar os pés por lá.

Pois ontem, cerca de 40 mil brancos invadiram o distrito mais famoso do país, muitos pela primeira vez. Como se não bastasse o feito histórico, os torcedores trocaram suas Mercedez e BMWs por ônibus e vans (aqui chamadas de taxi) para chegar ao estádio. Ver aquela multidão branca apinhada em ônibus, com um sorriso de uma orelha a outra, experimentando sem preconceito uma realidade nova, foi emocionante.

Nesses meses que estou aqui, me acostumei com o fato de que brancos e negros vivem em universos bem distintos. Não apenas têm a cor da pele diferente, mas falam línguas diferentes, escutam músicas diferentes, comem comidas diferentes, e por ai vai.


(Garoto branco pega "taxi" sul-africano para ir ao jogo)


Pois ontem esses dois mundos se encontraram numa linda final de rúgbi. O esporte dos brancos escolheu a capital dos negros para realizar sua festa. Como bem observou o amigo Thiago Dias, desde o massacre de 1976, em que a polícia do Apartheid atirou deliberadamente em estudantes negros, Soweto não recebia tantos brancos de uma só vez.

Dentro do estádio, a hora do hino sul-africano foi a mais emocionante. Quarenta milhões de brancos cantando com grande desenvoltura e orgulho as estrofes em zulu, xhosa e sotho do hino nacional. Para quem conhece bem tudo que este país sofreu para que negros e brancos pudessem c0nviver em harmonia, aqueles minutos foram um presente do país para esta jornalista apaixonada pela diversidade sul-africana. A resposta do povo para tudo que Mandela fez no passado.

Assim como na final do mundial de Rúgbi de 1995 retratada no filme “Invictus”, o esporte uniu brancos e negros num jogo histórico. Esperemos ver mais cenas como esta durante a Copa do Mundo daqui a 12 dias.
(Marta)

sábado, 22 de maio de 2010

Freshlyground vai contagiar o mundo na abertura da Copa


De todos os grupos que se apresentarão no show de abertura da Copa, em Soweto, no dia 10 de junho, aquele que tem mais cara de África é o Freshlyground. Descobri a banda há apenas dois meses e desde então os dois CDs que comprei do grupo ficam se revezando no aparelho do carro. Viraram um vício. (Na foto acima, cinco dos sete integrantes do Freshlyground)

As músicas - uma mistura de pop, rock, jazz e ritmos africanos - são contagiantes e dá logo vontade de dançar. Mesmo as canções mais românticas (uma preferência da banda) não enjoam, principalmente por mérito da vocalista, que tem uma voz super agradável. Seu nome é Zolani, uma negra baixinha e de muito carisma. Durante os shows da banda, ela e a violinista Khayla (outra baixinha) dão um banho de presença de palco e simpatia. Fazem passinhos ensaiados e mostram muito rebolado.

Assista ao clipe da música “Doo be Doo”, o primeiro sucesso do grupo.

Além delas o grupo é formado por cinco homens, que apesar de bem desajeitados, também arriscam dancinhas no palco. A sintonia entre os integrantes é um dos segredos do sucesso do Freshlyground. Não à toa, o grupo é cinco vezes vencedor do prêmio South African Music Award, o mais importante do país. É também uma das poucas bandas multiculturais da África do Sul, o que de certa forma acaba ajudando em seu próprio marketing.

Veja o clipe de "Fire is Low", música de trabalho do quarto cd "Radio Africa".

Tanto reconhecimento chamou a atenção da Fifa, que convidou o freshlyground para tocar nos shows de abertura e encerramento da Copa do Mundo. O grupo também participou da gravação da música oficial do Mundial “Waka Waka” com a cantora Shakira.

Além do Freshlyground, a África do Sul estará representada no show de abertura do Mundial pelo trompetista Hugh Masekela, os corais Soweto Mzansi Youth e Soweto Gospel, o artista de hip hop africano KNaan e o cantor Vusi Mahlasela.
(Marta)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Zuma é HIV negativo - o que está por trás desta notícia

A manchete dos principais jornais sul-africanos deste domingo foi a mesma: o resultado negativo do teste de HIV do presidente do país, Jacob Zuma. Talvez em nenhum outro lugar do mundo essa notícia teria a repercussão e relevância que teve aqui. O que reforça a gravidade da epidemia da Aids na África do Sul. São 5,7 milhões infectados num país de 50 milhões, ou seja, mais de 10% da população é HIV positivo.
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O resultado do teste de HIV de um governante ou de qualquer outro paciente não deve ser um assunto de interesse público, mas no caso de Zuma (e da África do Sul) é diferente.
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Em parte, a notícia pode ser encarada como algo positivo, pois o fato de Zuma ter divulgado o resultado pode incentivar outros sul-africanos a fazerem seus exames. Nos últimos meses, o presidente está engajado numa campanha para estimular a população a descobrir se tem ou não a doença, e a partir daí procurar o tratamento adequado.
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A África do Sul é líder no número de pacientes em tratamento com as drogas anti-retrovirais – 700 mil. No entanto, outras 1,5 milhão de pessoas estão à espera dos medicamentos.
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Mas por outro lado, é um cala-boca a seus críticos. Zuma tem um retrospecto complicado no que se refere à doença. Em 2005, ao ser acusado de estupro, alegou ter tomado um banho logo após a relação para não contrair a Aids. Ano passado, se envolveu numa polêmica familiar ao admitir que teve um filho fora dos casamentos (Zuma é polígamo), ou seja, havia transado sem camisinha com sua amante. Zuma tem três esposas, 20 filhos reconhecidos e uma noiva.
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O ato de tornar seu resultado algo público serve para mostrar que ele, Zuma, não precisa usar camisinha, pois depois de todas as lambanças de fez ainda saiu ileso. Por esta perspectiva, a notícia foi uma bomba nas políticas de combate à Aids
(Marta)

domingo, 21 de março de 2010

Namíbia comemora vinte anos de independência da África do Sul



A segunda mais nova república do continente africano comemora 20 aninhos neste domingo. A Namíbia ganhou sua independência da África do Sul no dia 21 de março de 1990, aproximadamente três anos antes da Eritréia se emancipar da Etiópia.


Na verdade, a Namíbia teve colonização Alemã e até hoje cerca de 30% de sua população fala o alemão, mas foi anexada pelo país sede da próxima Copa depois que a Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial.




Assim como a África do Sul, a Namíbia também viveu os cruéis anos do Apartheid. Lá como aqui, os brancos representam menos de 10% da população, mas detêm a maior fatia da riqueza nacional. Cerca de 90% da população falam Afrikaans, embora o inglês seja a única língua oficial.

Na verdade, a Namíbia é como fosse uma extensão da África do Sul. São as mesmas cadeias de restaurantes, ruas e carros parecidos, pessoas e problemas semelhantes ao país vizinho. Aids e distribuição de renda são alguns deles.




Apesar das semelhanças, a Namíbia tem algo que a África do Sul não tem: um deserto beirando o mar. A paisagem é deslumbrante, como essas dunas da foto que beliscam o Oceano Atlântico. Vale muito uma visita. A boa notícia é que uma passagem ida e volta da África do Sul para a capital Windhoek sai por menos de R$600 e brasileiro não precisa tirar visto de até três meses. Ficamos apenas três dias e não deu para conhecer o norte do país, onde dizem que o deserto é mais bonito.



As fotos acima são de Swakopmund - a 400 quilômetros da capital Windhoek. A cidade ainda preserva muitos traços da colonização alemã, principalmente na arquitetura. Parece um pouco o sul do Brasil ou Friburgo, no Rio de Janeiro.

(Marta)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Depois de Mandela, líderes polêmicos e escândalos


Na semana em que a África do Sul comemorou os 20 anos da libertação de Nelson Mandela da prisão, o país nunca esteve tão carente de um líder que o faça orgulhoso novamente. Mandela livrou uma nação inteira de um dos sistemas mais cruéis do mundo – o Apartheid –, implantou reconciliação onde só havia ódio e trouxe novamente visibilidade internacional à África do Sul. No entanto, seus dois sucessores, Thabo Mbeki e Jacob Zuma, não apenas não compartilham do mesmo carisma e brilhantismo do ex-presidente, como têm suas imagens associadas a escândalos.

Mbeki governou a África do Sul entre 1999 e 2008 e foi um presidente burocrático, distante do povo, que em nada lembrava Mandela. Durante seu governo, foi acusado de aumentar a desigualdade do país, principalmente entre os próprios negros. Com Mbeki, uma pequena classe média negra ficou ainda mais rica, enquanto a população pobre não tinha acesso a serviços básicos, como água encanada e eletricidade.

Mas o pior erro de seus mandatos foi mesmo na área da saúde. Em 1999, Mbeki chocou o mundo ao negar que o vírus HIV causava a Aids, quando há anos a discussão já havia sido encerrada pela comunidade científica. O ex-presidente também questionou a eficácia das drogas anti-retrovirais no tratamento dos doentes devido aos efeitos colaterais dos remédios.

Assim, o número de infectados durante os nove anos em que foi presidente deu um salto – estima-se que 330 mil pessoas tenham morrido, durante seu governo, em decorrência da demora em tomar ações efetivas no tratamento da doença.

Em 2009, a África do Sul elegeu Jacob Zuma. Por ser popular e carismático, o atual presidente foi visto por muitos eleitores como o resgate da figura de Mandela. De fato, Zuma procurou uma aproximação maior com o povo do que Mbeki, mas os escândalos envolvendo seu nome ameaçam sua popularidade e credibilidade.

Antes mesmo de ser eleito, Zuma já era uma figura controversa – foi acusado de estupro e corrupção. O último escândalo estourou há duas semanas, após um jornal local ter publicado que o presidente teve um filho fora do casamento. Com a nova criança, ele tem agora 20 filhos reconhecidos e três esposas oficiais – Zuma é adepto da poligamia. A notícia foi encarada como um golpe duro às políticas de combate à Aids – África do Sul tem 5,7 milhões de infectados, a maior epidemia da doença em todo mundo.





Depois de atingir o auge da popularidade com a eleição de Nelson Mandela em 1994, o partido Congresso Nacional Africano (CNA), no poder desde então, parece estar vivendo seu momento mais difícil com Zuma.

De acordo com a analista política Susan Booysens, da Universidade de Witwatersrand, além dos escândalos sexuais do presidente, o partido precisa dar conta da insatisfação nacional com a queda nos índices sociais. Uma pesquisa divulgada este mês indica que o desemprego no país atingiu os 25%.

- O governo de Zuma tem sido marcado por protestos por melhores condições de vida nas periferias. Falta água, esgoto tratado, eletricidade, quase tudo. Sem falar nos altos índices de desemprego e na educação deficiente. Zuma precisa se explicar para a nação – ressaltou Booysens.

Para tentar melhorar sua imagem, Zuma lançou mão de um trunfo forte. Na abertura do Parlamento nesta quinta-feira, o presidente recebeu a visita ilustre de Nelson Mandela, que mesmo com saúde frágil e numa cadeira de rodas, aceitou o convite para participar da solenidade. Mas, assim como pode ter ajudado o atual presidente, a presença de Mandela pode ter aumentado as comparações entre os dois.

Por tudo isso, este dia 11 de fevereiro de 2010 foi marcado mais por nostalgia do que pelas celebrações que a data merece.
(Marta)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Costa do Marfim



Riquezas naturais, por aqui, há aos montes. Tanto que uma delas batizou o país. E como o marfim tornou-se escasso, por causa da grande exploração desde o século 15, a Costa do Marfim buscou outros produtos em seu solo fértil. Hoje, é o maior produtor e exportador de cacau do mundo, por exemplo. Mas o que parece dar mais orgulho aos seus 20 milhões de habitantes é outra riqueza que nasce dessas terras - o talento para jogar futebol.

Na última década, diversos marfinenses passaram a brilhar na Europa, como Didier Drogba, atacante do Chelsea, capitão da seleção, maior nome do país. Mais do que ídolos, tornaram-se heróis. Se não ganharam nenhum título de expressão, eles ao menos tiveram o mérito de colocar a Costa do Marfim no mapa do futebol mundial. A seleção que jamais havia ido a uma Copa do Mundo antes de 2006, fará na África do Sul, em 2010, sua segunda participação consecutiva. Cartazes promocionais espalhados pelas ruas já convocam o povo para a festa. Mesmo em um grupo que conta com Brasil e Portugal, os "Elefantes" são considerados uma força.
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E ver a camisa laranja jogando de igual para igual com as principais equipes do mundo é motivo de alegria para um povo apaixonado por futebol.

Basta uma voltinha por Abidjan, maior cidade do país, para se ver uma coleção de camisas de grandes times europeus. Como em toda a África, os clubes de lá, especialmente os da Inglaterra, são bastante populares. Mas o fascínio pelo futebol vai um pouco além. Uma bola por aqui significa também uma oportunidade. Os que têm mais talento podem realizar o mesmo sonho que um dia sonharam Drogba e Kalou, do Chelsea, ou os irmãos Yaya e Kolo Touré, do Barcelona e do Manchester City respectivamente. Já os que não têm tanta sorte podem, com o futebol, ao menos ter um emprego. Isso significa um salário baixo, mas ganho às custas de suor e de paixão. Por aqui, não é pouco.


Por isso, mesmo aqueles que jogam no campeonato local já são considerados privilegiados. Um treino de uma equipe de primeira divisão, como o Hire Football Club, nem de longe lembra o de uma equipe de primeira divisão do Brasil. Ele é feito à beira da estrada, em um campo irregular, onde a grama é alta em alguns pontos e nenhuma em outros. Mesmo assim, as crianças param pra ver, fascinadas, aqueles jogadores de uniforme e chuteiras correndo atrás de uma bola oficial. De um lado da estrada, elas se deparam com gente ganhando a vida com o futebol. Do outro lado, enxergam outras perdendo para a realidade, vivendo com dificuldade e trabalhando para sobreviver. Não surpreende, portanto, que sempre escolham a bola.
(Rafael)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O jogo que uniu a África do Sul


Estréia no Brasil, no dia 29 de janeiro, o filme Invictus sobre a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, realizada aqui na África do Sul. Já ouviu falar? Pois é, pouca gente conhece ou sabe da importância deste evento para a África do Sul de hoje.

A direção é de Clint Eastwood, com Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela e Matt Damon como o capitão da seleção de rúgbi sul-africana, os Springboks. Um elenco de peso para dar vida a uma história fantástica. Mas o que um esporte como o rúgbi, que sempre foi considerado dos brancos e um símbolo do Apartheid, tem a ver com Mandela e África do Sul negra? Nada, era o que pensava a maioria dos sul-africanos naquela época - menos Mandela.

Em 1995, um ano após ter se tornado presidente do país, Mandela viu na realização da Copa do Mundo de Rúgbi em território nacional uma forma de colocar brancos e negros de um mesmo lado - a favor dos Springboks – e assim unir o país.

Convencer um negro a torcer pelos Springboks naquela época era quase tão difícil quanto conquistar a confiança dos brancos e fazê-los acreditar num governo para todos - muitos tinham medo de revanchismo por parte dos negros.




Mandela encontrou muita resistência de ambos os lados, mas ao fim foi recompensado em dobro: assistiu aos Springboks serem campeões da Copa do Mundo (outro feito improvável na época) num estádio lotado de brancos e negros. Claro que a maioria era branca, mas já foi um acontecimento inacreditável.

É uma história linda, impressionante, que mostra como Nelson Mandela é um sujeito iluminado, que merece o título de "filho de Deus", que algumas pessoas aqui lhe atribuem.

Não deixem de assistir. Morgan Freeman está imperdível como Mandela.

P.S: A pouca atualização do Blog é justificada, em parte, porque estávamos de férias e também porque o ritmo de trabalho aumentou muito em 2010, por isso nos sobra pouco tempo para escrever aqui. Mas a ideia é conseguir atualizar ao menos uma vez por semana. Obrigada pela preferência. :-)
(Marta)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Khayelitsha, uma township com vista pro mar


Nas estatíscas sul-africanas, Khayelitsha é uma das comunidades mais pobres e violentas do país. Para piorar, tem um índice de 33% de infectados pela Aids entre a população adulta. Mas à parte suas mazelas, o que eu vi lá foi um lugar vibrante e encantador, que dá o tom da riqueza cultural negra da África do Sul.


Khayelitsha é uma township, que são comunidades estabelecidas nas periferias das cidades pelo Apartheid para isolar a população não-branca. É mais ou menos como uma favela no Brasil, com a diferença de que favelas são, em geral, ocupações ilegais, mas voluntárias; townships, ocupações legais, porém forçadas.
Uma vantagem de Khayelitsha em relação a Soweto (a maior township do país), por exemplo, é que ela está na belíssima Cidade do Cabo. Por isso, ao invés de ruas de terra, as ruas são de areia branquinha. A comunidade está a menos de um quilômetro da praia mais próxima.

A comunidade tem um clima de cidade litorânea do interior. Em frente às casinhas simples, as mamas (forma respeitosa como as mulheres negras sul-africanas são chamadas) colocam suas cadeiras na sombra para jogar conversa fora. Crianças brincam soltas nas ruas - algo muito difícil de encontrar fora das townships.



Nas minhas andanças pelo lugar, passei pelo quintal de um barraco paupérrimo, onde crianças dançavam e uma mulher gastava o vozeirão enquanto lavava roupa. Perguntei se ela estava feliz naquele dia e ela me respondeu cantando: "sempre". Apesar de todas as difilcudades, ela havia escolhido ser feliz. A alegria daquela mulher me contagiou. E Khayelitsha ganhou um lugar especial nas minhas memórias africanas.


(Marta)

domingo, 6 de dezembro de 2009

O meu Flamengo


Dois mil e nove não é mais o ano em que eu saí de casa, que eu me mudei para a África, que eu vivi algumas das melhores experiências da minha vida. Desde este 6 de dezembro, 2009 é pra mim, em primeiro lugar, o ano em que o meu Flamengo foi hexacampeão brasileiro.


O último título havia sido em 1992, quando eu, então com nove anos, formei minha convicção, para sempre inabalável, de que o meu time era também, para a minha sorte, o maior clube do Brasil.


Só que os resultados dos últimos 17 anos não ajudaram. O Flamengo, que pela minha lógica não poderia nunca perder jogo algum para time nenhum, perdia campeonato atrás de campeonato. E eu ficava com aquela sensação de que não veria mais o Flamengo do tamanho que ele é.


Mas neste 6 de dezembro eu vi o meu Flamengo de novo, o número um do Brasil. Hoje o Flamengo foi hexacampeão brasileiro, mas foi, sobretudo, o meu Flamengo, gigante, aquele que eu aprendi a amar.


(Rafael)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sotaque português na África do Sul



Vira e mexe, eu e Rafael estamos numa loja fazendo compras e alguém pergunta se somos portugueses ao nos ouvir conversando. Respondemos que somos brasileiros e a pessoa se apresenta como descendente de portugueses. Além das nove etnias negras locais, dos sul-africanos de origem inglesa e dos africâneres (descendentes de holandeses), a África do Sul tem grandes comunidades portuguesas e gregas.

As naus de Diogo Cão e de Bartolomeu Dias foram as primeiras a aportar na costa sul-africana lá no século 15, mas não é por isso que eles estão aqui, são fatos bem mais recentes. Durante a colonização de Angola e Moçambique, Portugal mandou centenas de pessoas para povoar e desenvolver os países. Quando a guerra civil explodiu em ambos, ao invés de todos voltaram pra Portugal, uma parte se mudou para África do Sul.

Em Johanesburgo, eles se estabeleceram principalmente num bairro chamado Rosettenville. Dizem (eu nunca fui) que nas mercearias de lá você encontra feijão preto, farinha de mandioca e até goiabada. No resto da cidade, eles monopolizam as quitandas de frutas e verduras, e algumas cadeias de comida fast-food, como a Nando's. Aqui perto de casa tem uma dessas quitandas e, se não fosse pela portuguesa que trabalha lá, eu não teria encontrado folha de louro para colocar no meu feijão.

Ela é sul-africana de pais portugueses, como a maioria que mora hoje no país. A primeira língua é geralmente o inglês, mas o português é falado em casa e passado de geração em geração. No lugar onde jogo futebol, escuto várias meninas gritando "passa", "aqui", "chuta". É a tática que elas usam para que as demais jogadoras não entendam. Mas quando falam inglês, são sul-africanas como qualquer outra, sem qualquer sotaque. Só dá para identificá-las pelas camisas da seleção de Portugal e do Cristiano Ronaldo.

Em tempo: na Cidade do Cabo, alguns portugueses resolveram criar um time de futebol inspirado num clube brasileiro. O Vasco da Gama sul-africano tem mesmo nome, cores e uniforme bem parecido com o do time carioca. Até o futebol é semelhante: ele disputa a segunda divisão do campeonato nacional.

(Marta)

domingo, 22 de novembro de 2009

As cores da primavera "joburguiana"

Johanesburgo pode não ter as praias azulzinhas da Cidade do Cabo ou as montanhas belíssimas de Drakensberg, mas é, sim, uma cidade bonita e com atrações naturais. Principalmente agora na primavera com suas ruas decoradas com uma infinidade de cores e odores de flor. Caminhar pelas ruas numa manhã ensolarada de domingo não é um programa muito explorado pelos sul-africanos, que preferem lotar os shoppings centers. Pois eles não sabem o que estão perdendo. Tirei as fotos abaixo durante um passeio matinal no meu bairro.









(Marta)

sábado, 14 de novembro de 2009

O mistério da falta de bermudas


Pode procurar em um estádio da África do Sul, na beira do lago em Ruanda, nas ruas de Nigéria, Camarões, Gabão, Gana, Zimbábue... achar alguém de bermuda na África é quase tão difícil quanto ver um cachecol passeando na orla do Rio de Janeiro.

Não importa se está quarenta graus, se é meio-dia e se o sol está forte. Aqui não se vê quase ninguém com pouca roupa. Nas grandes cidades africanas, o uniforme é calça, camisa com manga e sapato.

E isso começa desde bem cedo, na escola. Normalmente as crianças vão para as aulas de terninho ou camisas compridas cheias de babado, calça e sapato social.

A razão disso eu não sei. Pode ser influência da colonização inglesa ou francesa, pode ser uma forma de se proteger do sol, pode ser moda ou, mais provavelmente, pode ser simplesmente um costume, uma tradição. Só sei que aos meus olhos brasileiros é tudo muito estranho.

Tenho pra mim que há de chegar o dia em que ouviremos falar da "Revolução das Bermudas" na África. E por todo o continente, milhões de pessoas irão às ruas, com tesouras nas mãos, cortar calças e camisas em sinal de liberdade, por uma vida mais fresquinha...
(Rafael)

Copa de 2010: a vez da África


Este blog fala sobre história, cultura e geopolítica africanas, mas também se propõe a ser um fórum de discussão sobre assuntos que interessam e interferem na vida de todo o planeta. Por isso, pedimos licença para tratar daquilo que é realmente relevante nesta vida: o futebol.


Neste sábado, mais dois africanos se garantiram na Copa do Mundo de 2010 - Camarões e Nigéria. Durante a semana, sairá mais um classificado entre Egito e Argélia. Meu palpite é que o Egito vai atropelar, o que não deixa de ser um forte indício de que a Argélia pode levar a vaga. Mas se eu contrariar meu retrospecto recente e acertar desta vez, teremos então as cinco grandes seleções africanas no Mundial. Na ordem de força, segundo minha avaliação, Costa do Marfim, Gana, Camarões, Egito e Nigéria. Todas têm bons jogadores, experiência e futebol suficiente para chegarem, no mínimo, às oitavas de final da competição.


Tradicionalmente, o futebol africano é sempre muito festejado antes das Copas, mas em campo jamais conseguiu passar das quartas de final. Desta vez, porém, manda aqueles que são, de fato, seus cinco melhores representantes, ao contrário de 2006, quando Angola, Togo e Tunísia foram passear na Alemanha. Além disso, todos jogarão com torcida a favor e provavelmente com aquela arbitragem amiga.


Por isso, com os "Big Five" na Copa, eu aposto numa gloriosa semifinal com uma seleção africana. Elas têm bola pra isso.


Infelizmente considero apenas cinco possibilidades porque a sexta representante, a África do Sul, minha preferida, parece longe de resolver sua eterna crise de relacionamento com o gol.


(Rafael)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Uma vida no lixo



Marian vive há mais de 30 anos na Cidade do Lixo, um bairro imundo na periferia do Cairo. Mãe de quatro filhos, ela divide seu tempo entre cuidar das crianças e administrar uma barraca de frutas.


A Cidade do Lixo fica na maior metrópole da África, mas Marian poucas vezes largou sua rotina para passear pelas movimentadas ruas do Cairo. Ela não conhece as pirâmides de Gizé, nunca passeou pelo rio Nilo de barco, ou fez compras no famoso mercado Khan El Khalili.



Além de entender de frutas, Mariam conhece bem o lixo. Sabe direitinho o que é aproveitado para reciclagem, o que será dado aos animais, o que ela pode levar para as crianças brincarem. Até montar a vendinha de frutas, trabalhava na seleção do lixo que seu marido trazia em caminhões lotados várias vezes ao dia. A Cidade do Lixo concentra 60% do lixo do Cairo.


Todas as amigas de Mariam conhecem o lixo tão bem quanto ela. Os filhos de suas amigas também. Na verdade, é tudo o que conhecem. A maioria dos 30 mil habitantes da Cidade do Lixo é analfabeta e passa a vida separando os restos e dejetos que são trazidos do Cairo por seus maridos e irmãos.



A Cidade do Lixo não tem água encanada ou esgoto, está tomada por lixo e ratos, mas Marian nem cogita se mudar. Esta é a única realidade que ela conhece e a qual está acostumada.


(Marta)


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

E lá se foi um grande personagem...

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Não vou discutir aqui se Joel Santana é bom técnico e se a Federação Sul-Africana acertou ou não em demiti-lo. Por ofício, o que mais me interessa não são os resultados dele, mas o grande personagem que ele é. Joel é o cara que improvisa nas frases feitas ("não vou chorar o leite que já caiu"), que manda uma metáfora atrás da outra ("o futebol é como o amor") e que sempre rende uma boa entrevista. No futebol isso não é pouca coisa.
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Como disse meu amigo Eduardo, Joel é o Zeca Pagodinho do futebol, porque não há como conversar com um dos dois sem se divertir, goste você ou não de samba ou de retranca.

Joel não faz o tipo "professor", com terno e gravata. Fala o seu inglês do subúrbio do Rio e assim já chegou muito longe na vida. Por isso, seria muito bom vê-lo chegar também a uma Copa do Mundo. Mas ao que parece, não será desta vez. Azar da Copa do Mundo.
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(Rafael)

domingo, 11 de outubro de 2009

O caos da cidade sem sinal



Imagine uma grande e movimentada avenida como a Presidente Vargas ou a Rio Branco sem sinal de trânsito? Agora coloque milhares de pessoas tentando atravessar a rua entre os carros, motoristas freando em cima de mulheres e homens, e um barulho ensurdecedor de buzina. Imaginou? Então, você tem a figura perfeita do que é o Cairo. Nesta gigante metrópole de 15 milhões de habitantes quase não há sinais ou passarela para os pedestres. Se o Cairro fosse Johanesburgo, ainda era um absurdo, porém um pouco mais compreensível já que na cidade sul-africana quase não se vê gente andando nas ruas. Mas não é o caso aqui. A capital do Egito é tão ou mais movimentado do que o Rio.

Usar a buzina virou um tique - elas servem para tudo: reclamar de um motorista mal-educado, chamar atenção de um pedestre, cumprimentar um amigo, chamar passageiros para taxis e ônibus, agradecer, etc. Na verdade, ela serve para tanta coisa que acaba servindo apenas para enfernizar ainda mais o trânsito.
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Aqui reina o "jeitinho egípcio". O cidadão aponta o carro e aos poucos vai pedindo passagem. O pedestre se aventura no trânsito maluco, o que obriga os carros a reduzir. É arriscado, mas no fim todos se entendem. Na verdade, até existem alguns sinais, mas poucos funcionam. Facilitar a vida das pessoas certamente não é a prioridade do presidente-múmia do Egito, que está há 28 anos no poder.

Outra curiosidade sobre o trânsito egípcio é que aqui não tem hora do rush, ele é caótico das 8h da manhã à 1h da madrugada. Esta quinta (no Egito, o fim de semana começa na sexta, e o domingo deles é a nossa segunda-feira) pegamos engarrafamento à meia-noite, saindo de uma pizzaria. A cidade estava a todo vapor. As ruas lotadas de gente e muitas lojas abertas. É a primeira vez que eu vejo uma quitanda de frutas funcionando meia-noite e meia. Lavanderias, lojas de roupa, restaurantes...tudo aberto.
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No Egito é assim, as madrugadas são mais agitadas do que as manhãs. Muitas lojas abrem meio-dia para só fechar meia-noite. Dizem que no inverno é um pouco diferente. Além do calor, esse hábito é possível porque o país é muito seguro - índices baixíssimos de assalto, furto e assassinato. Há muitos policiais na rua - muito mais para manter a ordem e não ameaçar a estabilidade do governo ditatorial que comanda o país, do que para proteger a população.
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(Marta)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A cidade que acorda às seis da tarde



Para quem mora na minha querida Johanesburgo, três coisas no Egito encantam imediatamente:

A primeira é o suco. Ao contrário das insuportáveis caixinhas sul-africanas, aqui o suco é natural e normalmente vem até com pedaços de fruta. Delicioso.


A segunda é o transporte. Há trens e ônibus entre as cidades e uma frota aparentemente interminável de táxis. Os veículos não são modernos, mas andar neles é barato. Cada corrida de táxi me custa, em média, 1 dólar (o valor é negociado na hora, porque não há taxímetro). Mas muitas vezes nem preciso recorrer a eles, porque vou a pé de um canto a outro, mesmo debaixo de sol, mesmo um pouco distante, só para lembrar da sensação de andar na rua. Parece coisa boba, mas para quem vem de Johanesburgo não é.


E a terceira é a vida noturna. Em qualquer dia da semana, de trabalho ou de descanso, as ruas ficam cheias depois das 10 da noite em Port Said. Lojas abertas, trânsito, meninos jogando bola na praça, restaurantes movimentados, tudo funcionando. As coisas aqui começam mais tarde (pela primeira vez vi um hotel servindo café-da-manhã até o meio-dia) e fica difícil até almoçar às 13h, porque a maioria dos restaurantes ainda não abriu.


Minha teoria, talvez furada, talvez não, é de que o sol forte, presente dia sim e no outro também, faz com que as pessoas prefiram circular a partir do fim de tarde. É totalmente diferente de Johanesburgo, onde o dia começa às 7h e a cozinha dos restaurantes fecha à meia-noite nos sábados.


Só não sei dizer a que horas Port Said dorme, porque eu sempre vou dormir antes dela.


(Rafael)

domingo, 4 de outubro de 2009

Classificados

Se você procura um trabalho tranquilo, sem muita pressão, candidate-se à vaga de meteorologista no Egito. Não tem erro, a previsão do tempo é quase sempre a mesma: céu claro, sol forte e temperaturas próximas ao insuportável.

Se você pretende ficar rico, experimente abrir uma empresa de limpeza pública por aqui. Garanto que a concorrência, se existe, é bem pequena.

Já se você busca estabilidade profissional, então o melhor cargo é o de presidente do Egito. O último vestiu a faixa em 1981 e está com ela até hoje.

(Rafael)

sábado, 3 de outubro de 2009

2016: agora vai?!


A vitória do Rio para sediar as Olimpíadas de 2016 causou grande comoção nacional e acabei me rendendo à festa. Até os 45 minutos do segundo tempo, eu era totalmente contra a realização do evento na cidade. A experiência no Pan-Americano de 2007 foi bastante frustrante, com superfaturamento e uma corrupção deslavada do nosso querido COB. Mais do que isso, vimos o Rio perder uma ótima oportunidade para sair da decadência, de investir de verdade em infraestrutura, enfim, de tornar a vida do carioca mais civilizada. As instalações esportivas viraram "elefantes brancos" e pouco foi feito para incentivar o surgimento de novos talentos no esporte. Foram gastos bilhões dos cofres municipais para conseguir terminar as obras a tempo e com isso a conservação da cidade foi completamente esquecida. Andar pelo Rio hoje é desviar de buracos e lixo por toda parte. Há um cheiro de mijo permanente nas ruas do Centro e da Lapa. Conseqüências do abandono do último mandato de César Maia.
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O primeiro legado do Pan são as Olimpíadas de 2016. As instalações esportivas construídas para 2007 e o "sucesso" do evento aumentaram a confiança do Comitê Internacional de que o Rio daria conta do recado. Mas e o resto? A maior parte dos projetos não saiu do papel, entre eles a construção da Linha 4 do metrô -ligando zona sul-Barra- e a despoluição da Baía de Guanabara. O cidadão comum pouco se beneficiou do Pan.

Meu medo é que aconteça a mesma coisa em 2016, por isso era contra esta candidatura. O que me fez mudar de ideia? Minha ida ao Rio em setembro. Depois de seis meses morando em Johanesburgo (com todos os problemas que infraestrutura que há aqui), fiquei muito espantada com a situação do Rio. A ex-capital brasileira está na UTI e precisa urgente de um transplante generalizado. Transplante de ônibus, de trem, de viadutos, de túneis, de asfalto, de segurança, de educação (do povo principalmente), de vergonha na cara. Com tudo que vejo acontecer na cidade que já adotei como minha há alguns anos, comecei a questionar o que precisa ser feito para que o choque de ordem criado de Paes realmente surta efeito lá.
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Em poucos dias na cidade, fiquei sabendo que depois de criticar veemente a Cidade da Música de César Maia, nosso prefeito Eduardo Paes tem planos de iniciar um projeto parecido na zona portuária – quer construir um mega aquário -, que certamente terá o orçamento inicial de alguns poucos milhões e terminará quase na casa dos bilhões. Sobre o assunto minha mãe falou muito sabiamente: “Deveria haver uma lei mais rigorosa para impedir as ideias megalomaníacas de nossos prefeitos”. E meu pai completou: “Um prefeito deveria entender que seu papel deve se limitar a tornar a vida do cidadão mais fácil, precisamos de acesso a serviços básicos, e não de projetos como esses”.
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Comecei a questionar novamente o futuro da cidade. Será que Paes se limitaria a tornar nossa vida mais fácil? Duvido muito. Foi quando passei a depositar minhas últimas esperanças nestas Olimpíadas, além da Copa de 2014, claro. É preciso que aconteça alguma coisa muito grande e importante (muito mais do que um Pan-Americano) para sacudir de vez a cidade. Além disso, preciso confiar de que vai dar certo a ser uma daquelas pessoas pessimistas que alegam que o país não tem jeito e enchem o peito para falar, ao final: "Não avisei?". As Olimpíadas terão uma fiscalização muito mais rigorosa e pressão internacional para que as promessas de campanha sejam cumpridas. Pelo menos, a maior parte delas. Não tem jeito, o Rio terá que mudar e se reinventar. Mas é preciso planejamento e fiscalização, principalmente por parte de nós brasileiros.

Eu passei a depositar todas as minhas fichas neste evento. Tanto que tive uma reação totalmente inesperada quando o presidente do COI anunciou a cidade campeã. Chorei compulsivamente como uma criança e passei a noite pensando no que precisa ser feito na cidade. Esta vitória me tirou o sono e resgatou um otimismo raro em se tratando do Rio de Janeiro. Se não for agora, então acho que perderemos nossa última chance.
(Marta(